Conta o evangelho que um dia os doze apóstolos foram até uma cidadezinha e o mestre não ia com eles, ficou bem atrás da turma, deixando que eles fossem a frente. Aconteceu que eles entraram numa discussão “de quem deles que era o mais importante”. Como o evangelho não traz o conteúdo dessa discussão, vamos tentar reproduzi-las em nossos dias. Podemos imaginar o seguinte:Pedro: “O mais importante sou eu! Vocês bem sabem que o mestre sempre me nomeia em primeiro lugar! Ele até mudou meu nome, que antes era Simão e agora é Pedro. Foi ele mesmo quem me nomeou novamente! Eu sou um iniciado! O iniciado é aquele que muda o nome. Eu não sou mais Simão, agora eu sou o Simão Pedro!”. Assim falava Pedro para mostrar que era o mais importante.
Então veio a vez de Tiago que era primo de Jesus. “Então o parentesco não vale mais nada? Vocês não são primos de Jesus, mais eu sou! Eu sou muito importante por que sou parente do Mestre!” Assim falava Tiago.
Aí veio a vez de João. Ele pretendia o primeiro lugar à direita do Mestre. João disse: “Vocês não se lembram que eu sou o discípulo amado e predileto do Mestre?”
Então veio a vez de Mateus: “Importantes vocês que foram pobres pescadores? Vocês não sabem que eu fui o chefe da coletoria de Cafarnaum? O que foi que vocês abandonaram quando o Mestre voz chamou? Apenas umas redes velhas e umas canoas! Eu não, eu abandonei a coletoria de Cafarnaum, por isso, sou o mais importante entre nós!” Os coletores são chamados de os publicanos que colaboravam com os invasores estrangeiros. Eles arrendavam as coletorias do Império Romano para poderem explorar e tirarem um bom dinheiro. Mateus se achava o mais importante por ter abandonado a coletoria e o dinheiro resultante do mesmo.
Então veio a vez de Judas: “Importantes vocês? O que vocês vão fazer sem o dinheiro que está comigo? Eu sou o tesoureiro do grupo por isso sou o mais importante entre nós!”.
Mais ou menos assim devem ter dito os discípulos de Jesus – tão profanos, egoístas e gananciosos! Isto eles fizeram na ausência do Mestre.
Ao anoitecer, chegaram a uma aldeia e Jesus se juntou a eles. Ele Sabia de tudo, mas fez de conta que não sabia de nada. Ele sentou-se junto a eles e perguntou:
“De que assunto vocês tratavam durante o caminho? Eu ouvi uma agitação muito alta. O que estava acontecendo”.E todos permaneceram calados. Ninguém se atrevia a falar a verdade ou mesmo a mentir. O melhor mesmo era ficar calados de tão encabulados e envergonhados que estavam.
Então, o Mestre sentou-se no meio deles e disse:
“Os Reis e Príncipes deste mundo são chamados ‘grandes’, por que estão sentados em seus tronos dando ordens aos seus súditos. Convosco não há de ser assim: quem dentre vós quiser ser grande, que seja o servidor de todos!” Imagine só, ele inverteu todo o programa deles!
Grandeza não é ser servido, grandeza é servir voluntariamente! Esta é a nova filosofia do mestre! A filosofia do mestre é servir voluntariamente, de graça.
“Quem dentre vós quiser ser grande, seja o servidor de todos!” Eles ficaram calados, mas tomaram a sério estas palavras.
Querer ser importante é egoísmo. Quem importa muito e não exporta nada entra na inflação e a inflação leva a falência. Quando o homem é muito importante é um grande egoísta, mas, se ele é exportante então ele se torna altruísta. Por que importar é de fora para dentro e exportar é de dentro para fora. Todo egoísta é importante e por isso ele entra na inflação e está em vésperas de falência. Na realidade, já está falido.
Existem homens que são exportantes, são altruístas. Existem muitos altruístas mercenários, mas altruístas gratuitos não há muitos. Há muitos servidores que são pagos pelos seus serviços. Onde há os servidores gratuitos? Servidor que é pago pelo seu serviço é um servidor mercenário! Por que ele é recompensado pelo seu serviço e isto é um outro tipo de egoísmo.
De vez em quando a gente encontra um servidor não mercenário, alguém que quer servir de graça, sem nenhuma recompensa, nem mesmo a recompensa dos homens antes da morte e nem mesmo de Deus depois da morte. Esses são os grandes, os gigantes, os servidores que não esperam nenhuma recompensa pelo seu serviço, servem por amor. Quem quiser ser grande, seja servidor de todos e não exija nada pelo seu serviço, não exija nada nem dos homens e nem de Deus. Realize-se tão somente, pelo amor!
Grandeza é servir gratuitamente por amor. Grandeza não é ser servido. Não é servir por recompensa, pois isto é altruísmo que nada mais é do que um egoísmo sublimado. O altruísta espera sempre alguma recompensa, se não é em forma de dinheiro, é em forma de louvor, aplausos ou em forma de um ‘céu futuro’.
Grandeza é servir sem nenhuma intenção, somente pelo amor, incondicionalmente e nada mais!
Alguns avatares deste mundo são tão grandes, que se fazem voluntariamente servidores dos outros por amor. Eles possuem uma plenitude de liberdade tão grande que são livremente servidores dos outros. Isto é ser um milionário de liberdade. Quem tem pouca liberdade tem que defender a sua liberdade, mas quem tem 100% de liberdade, esse pode dizer que está pronto a servir os meus próprios escravos. Isto é grandeza.
Mas quem é que pode fazer tal coisa? Quem se identifica com o seu querido ego humano, não pode ser livre, por que o ego nos escraviza mesmo quando somos altruístas. A maior parte dos egoísmos trata-se de um egoísmo sublimado.
Temos que nos transegoficarmos, transmentalizarmos, temos que descobrir algo que não seja nem um ego egoísta e nem um ego altruísta, mas que seja o nosso Eu Divino. Quando alguém abre os olhos para a realidade do seu Eu Divino, do seu Atman, da sua alma, do Pai nele, do seu Cristo Interno, da Luz do mundo que ele é, do tesouro oculto que ele é, do Reino de Deus que ele é, da pérola preciosa que ele é, então, finalmente ele ultrapassou todos os egoísmos… Descobriu a verdade redentora. A verdade voz libertará do egoísmo e até do altruísmo mercenário.
Em última análise, tudo é autoconhecimento. Hoje em dia, toda a religião, toda filosofia, toda ética está reduzida a uma só palavra: autoconhecimento. Que sou eu? Enquanto alguém ainda se identifica com qualquer aspecto do seu ego humano não está liberto, tem que ser egoísta. Somente quem abre os olhos para a realidade da sua alma divina, este finalmente superou todos os egoísmos e é um grande liberto pelo conhecimento da verdade sobre si mesmo.
A única finalidade de um retiro espiritual é a de chegar ao autoconhecimento. É muito difícil chegar ao autoconhecimento. Não colocar remendo novo em roupa velha… Mas abrir os olhos para uma nova criatura em Cristo, uma nova criação total, tudo novo, integralmente novo… Isto é o descobrimento do Eu Divino em nós!
Que sou eu?
Que sou eu?
Eu não sou o meu corpo.
Eu não sou a minha mente.
Eu não sou as minhas emoções.
Tudo isto eu apenas tenho, tenho, tenho…
Eu sou o Espírito de Deus. Eu e o Pai somos um! O Pai está em mim e eu estou no Pai! Eu e o espírito do Cristo somos um! Eu sou a Luz do mundo! Eu sou o reino de Deus. Eu sou um tesouro divino! Eu sou uma pérola preciosa no fundo do mar! Isto eu sou!
É preciso repetir sempre isto, dia e noite. Quando alguém se consolida definitivamente na consciência do seu ser divino, então o seu agir é um transbordamento natural da consciência do seu ser. O agir segue ao ser. Se eu não tenho a consciência nítida do meu ser divino eu não posso realizar a vivência do meu agir correto. O reto-agir supõe o reto-ser.
Então, o que é que eu sou? Eu sou o Espírito de Deus! Quando alguém se convence desta verdade fundamental, a ética não é difícil. O reto-agir é uma conseqüência do reto-ser. Quem não tem a consciência do seu reto-ser tem a eterna dificuldade no seu reto-agir. Constrói uma moralidade precária, mas nunca uma ética verdadeira e sólida. A ética é simplesmente a conseqüência da mística e quem não tem a visão da mística do seu ser, não pode ter um reto agir de ética.
Quantas vezes nós encontramos pessoas importantes que nos dizem:
Você sabe com quem você está falando? Eu sou filho de fulano de tal! Com isso eles querem dar grandeza ao seu ego humano, como se fosse grandeza ser filho de A-B ou C! A verdadeira grandeza é ser filho de Deus e não filho de ego! Nossos pais não nos deram, a verdadeira filiação, apenas nos deram o nosso invólucro humano, mas não deram o conteúdo divino. Nossa alma não veio dos nossos pais, ela é uma emanação da Divindade. Todos nós nascemos de Deus muito antes de nascermos de nossos pais. Os nossos pais nos deram uma roupagem física, mas Deus nos um conteúdo muito antes da nossa geração humana. Quando alguém tem a consciência da sai filiação divina então todas as outras grandezas desaparecem… Pode ser filho de quem for, pode ter título de doutor, disto ou daquilo, mas isto não interessa mais… a grandeza da filiação divina eclipsa todas as outras pseudo-grandezas.
Mas quem é que tem a consciência da sua filiação divina?
Quem é que se vê realmente como filho de Deus?
Quando alguém tem essa visão mística da sua realidade divina não tem mais nenhum interesse em arranjar títulos de grandezas por fora, rasteiramente humanos, horizontalmente profanos… Isso não interessa mais! Mas quem não vê a sua verdadeira grandeza vive sempre a cata de pseudo-grandezas externas.
Pascal já dizia em seus pensamentos: “O homem é um misto de grandeza e de miséria. As suas misérias já são bem conhecidas, mas ninguém conhece a grandeza do homem!”
As misérias são do ego e a grandeza é do Eu e quem não descobre a sua grandeza divina vai se orgulhando das suas próprias misérias egoísticas.
Os discípulos faziam exatamente isso: orgulhavam-se de suas misérias egoísticas por que não tinham descoberto a sua grandeza divina. O mestre então põe em termos claros a grandeza deles: Grandeza é servir voluntariamente; não é querer ser servido!
O grande terapeuta resolve todo o problema da auto-realização em duas palavras: adorar e servir.
Adorar Deus em Deus e servir Deus nas criaturas de Deus!
Adorar é o primeiro e maior de todos os mandamentos.
Servir é o segundo mandamento. Ninguém pode servir voluntariamente sem ter aprendido a adorar corretamente. Ninguém pode passar para a horizontal do serviço voluntário quem não estabeleceu a vertical da mística divina em si mesmo. Podemos ter certa moralidade, mesmo sem a mística, mas nunca teremos verdadeira ética. Para nós, moralidade é uma coisa muito precária, arranjada de momento. A ética é outra coisa: é um transbordamento irresistível e mesmo inconsciente da experiência mística.
Parafraseado por Nelson Jonas de uma gravação de Huberto Rohden, feita por J.B. Castro.
